​Tratamento de Infecções Fúngicas Invasivas

A prevalência de infecções fúngicas tem aumentado ao longo do tempo, em paralelo ao aumento do número de pacientes sob maior risco (pacientes críticos e imunossuprimidos). O uso correto de antifúngicos é importante para alcançar os melhores desfechos, reduzindo os custos, toxicidades e a emergência de resistência. A condição clínica grave do paciente portador deste agravo justifica a avaliação multiprofissional e com especialistas.


Diagnóstico de Infecções Fúngicas Invasivas

Critérios do hospedeiro

Critérios clínico-radiológicos

Critérios Micológicos

  • Neutropenia < 500 neutrófilos/mm3, > 10 dias

  • Neoplasia hematológica e transplantes de órgão sólido ou de células troco-hematopoiéticas

  • Corticóide por tempo superior a 3 semanas em dose superior a 20mg/dia de prednisona (ou equivalente)

  • Imunossupressores nos últimos 90 dias: inibidores de calcineurina e de mTOR, antiTNFalfa, alemtuzumab, ibrutinib, quimioterápidos análogos de nucleosídeos

  • Imunodeficiência inata grave (doença granulomatosa, imunodeficiência combinada grave)

  • Outros: Broncopneumopatia prévia, cirrose descompensada, HIV, pneumonia viral grave (influenza, covid-19)


  • Doença do trato respiratório baixo (nódulos densos com ou sem sinal do halo, sinal do ar crescente, cavitação)

  • Traqueobronquite: úlceras, nódulos, pseudomembranas, placas

  • Sinusite: imagem + dor localizada com irradiação para os olhos ou úlcera nasal com crosta negra ou invasão óssea

  • SNC: lesão focal ou realce meníngeo à tomografia ou ressonância magnética.


  • Testes diretos: micológico direto, citologia, cultura ou PCR (escarro, lavado broncoalveolar, escovado brônquico, aspirado de seios da face)

  • Testes indiretos: galactomanana (plasma, soro, lavado broncoalveolar)

  • Histopatologia




  • IFI possível: 1 critério do hospedeiro + 1 critério clínico-radiológico
  • IFI provável: 1 critério do hospedeiro + 1 clínico-radiológico + 1 microbiológico
  • IFI comprovada: necessário critério microbiológico com teste direto realizado de amostra clínica habitualmente estéril ou que haja evidência de invasividade em exame histopatológico.

Candidemia

Quadro infeccioso

Considerações Diagnósticas

Esquema

Duração do tratamento

Candidemia


C. albicans


Candida não-albicans:

- C. glabrata  

- C. parapsilosis 

- C. tropicalis 

- C. krusei 


No Hospital Sírio-Libanês, a maioria das candidemias tem sido por Candida não-albicans e temos observado 25% de resistência aos azólicos e nenhuma resistência às equinocandinas


50% dos pacientes não apresentam isolamento do agente em hemoculturas. 


É importante a suspeita clínica de acordo com probabilidade pelos fatores de risco: paciente críticos, pacientes neutropênicos, uso de NPT, Presença de CVC, hemodiálise, cirurgia abdominal recente, uso de antibioticoterapia de amplo espectro.



Recomendação:

Micafungina 100mg 1 vez ao dia.


Alternativas: 

1°) Anidulafungina 200 mg de dose de ataque e 100mg por dia posteriormente


2°) Caspofungina (não padrão) 70 mg de dose de ataque e 50mg por dia posteriormente.


3°) Rezafungina (não padrão) 400 mg de dose de ataque e 200 mg por semana posteriormente.   


4°) Anfotericina lipossomal 3-5 mg/kg/dia

14 dias a partir da primeira hemocultura negativa após início do tratamento e desde que melhora clínica e sem focos metastáticos (endocardite, endoftalmite).


Observações:  Quando há a suspeita de infecção de corrente sanguínea relacionada a CVC, o atraso na retirada do cateter aumenta a mortalidade. Em pacientes estáveis, mediante antifungigrama, melhora clínica após terapia inicial com equinocandina, é possível descalonar a antibioticoterapia para azólico oral.  Sugere-se acompanhamento por infectologista durante o tratamento (CID, 2019; 68(9):1585–7). Isavuconazol NÃO se mostrou não inferior a equinocandina no tratamento de candidíase invasiva. (CID, 2019; 68(12):1981-9)

Aspergilose Invasiva

Quadro infeccioso

Considerações Diagnósticas

Esquema

Duração do tratamento

Aspergilose invasiva


Aspergillus fumigatus

Aspergillus Niger

Aspergillus flavus

Aspergillus terreus

Formas Clínicas:

- Pulmonar invasiva

- Sinusopatia invasiva

- Cutânea

- Disseminada

- Sistema nervoso central


Recomenda-se sempre que possível buscar os critérios de infecção comprovada e solicitar antifungigrama.

Recomendação:

Voriconazol* 6 mg/kg EV 12/12h no primeiro dia, seguido de 4 mg/kg de 12/12h EV


Alternativas:

1º) Isavuconazol 200 mg de 8/8h por 2 dias seguido de 200mg/dia, EV


2º) Anfotericina B lipossomal 3 mg/kg/dia, EV 1x/dia

6 a 12 semanas

ObservaçõesConsiderar troca para esquemas alternativos em caso de efeitos colaterais à primeira escolha, interações medicamentosas, falha em atingir o nível terapêutico ou má resposta ao tratamento. *Necessário monitorar o nível sérico do voriconazol, caso seja a opção terapêutica. Primeira aferição do nível sérico: 2 a 5 dias após o início do tratamento (ou após a 5ª dose), repetir na segunda semana de tratamento, repetir em 3 a 5 dias se houver mudança de dose, transição EV -> VO, modificação significativa na condição clínica (piora infecciosa ou suspeita de toxicidade), início ou interrupção de nova medicação com interação. Sugere-se acompanhamento por infectologista durante o tratamento. Não se recomenda a terapia combinada. 

Mucormicose

Quadro infeccioso

Considerações Diagnósticas

Esquema

Duração do tratamento

Mucormicose


Mucor sp

Rhizopus sp

Rhizomucor sp

Cunninghamella sp

Lichtheimia sp (Absidia sp)

Formas clínicas:

- Pulmonar

- Rino-órbito-cerebral

- Outras


Pacientes de maior risco:

Portadores de doenças onco-hematológicas, transplantados

Portadores de diabetes descompensado

Uso de corticoides

Situações de sobrecarga de ferro e tratamentos quelantes relacionados 


Sinais que favorecem do diagnóstico de mucormicose no paciente neutropênico febril (em comparação à possibilidade de aspergilose): presença de múltiplos nódulos e presença de derrame pleural

Recomendação:

Fase de Indução

Anfotericina B lipossomal

5 a 10 mg/Kg/dia, EV 1x/dia


Alternativas:

Isavuconazol 200 mg EV 8/8h por 2 dias, seguido de 200 mg/dia, EV


Fase de Manutenção:

Isavuconazol 200mg de 8/8h por 2 dias  seguido de 200 mg/dia,VO 


Alternativas:

Anfotericina B lipossomal

3 – 5 mg/Kg, 3x/semana*


Fase de indução:

3 a 6 semanas


Fase de Manutenção:

6 semanas a 6 meses ou mais, a depender da remissão dos sintomas, regressão das alterações dos exames de imagem e recuperação da imunossupressão

Observações:  O tratamento é baseado nos pilares: Desbridamento cirúrgico da lesão com margem de segurança (essencial na forma rino-órbito-cerebral), Controle da doença de base (ex: diabetes, imunossupressão) e Tratamento antifúngico imediato. Considerar troca para esquemas alternativos em caso de efeitos colaterais à primeira escolha, interações medicamentosas, ou má resposta ao tratamento. Sugere-se acompanhamento por infectologista durante o tratamento. 

Fusariose Invasiva


Quadro infeccioso

Considerações Diagnósticas

Esquema

Duração do tratamento

Fusariose invasiva


Fusarium solani

Fusarium oxysporum

Fusarium verticillioides

Fusarium moniliforme

Formas Clínicas:

- Sinusite

- Pneumonia

- Infecção de pele

- Fungemia / doença disseminada



Em pacientes transplantados as hemoculturas são positivas em 44%


Recomenda-se sempre que possível buscar os critérios de infecção comprovada e solicitar antifungigrama.



Recomendação:

Voriconazol 6mg/kg EV 12/12h no primeiro dia, seguido de 4mg/kg de 12/12h EV


Alternativa: 

Anfotericina B lipossomal 3mg/kg/dia, EV 1x/dia


Para casos graves:

Voriconazol 6mg/kg EV 12/12h no primeiro dia, seguido de 4mg/kg de 12/12h EV

+

Anfotericina B lipossomal 3mg/kg/dia, EV 1x/dia

(ajustar após obtenção do resultado do teste de sensibilidade aos antifúngicos)

Até resolução dos sinais infecciosos e da imunossupressão

ObservaçõesConsiderar troca para esquemas alternativos em caso de efeitos colaterais à primeira escolha, interações medicamentosas, falha em atingir o nível terapêutico ou má resposta ao tratamento. Necessário monitorar o nível sérico do voriconazol, caso seja a opção terapêutica. Primeira aferição do nível sérico: 2 a 5 dias após o início do tratamento (ou após a 5ª dose), repetir na segunda semana de tratamento, repetir em 3 a 5 dias se houver mudança de dose, transição EV -> VO, modificação significativa na condição clínica (piora infecciosa ou suspeita de toxicidade), início ou interrupção de nova medicação com interação. Avaliar debridamento cirúrgico e redução da imunossupressão (incluindo transfusão de granulócitos). Sugere-se acompanhamento por infectologista durante o tratamento.

Profilaxias de infecções fúngicas


  • Profilaxia direcionada para Candida sp é indicada se há risco de candidemia acima de 10%. Exemplos: neutropenia profunda e prolongada (>7 dias) e/ou mucosite grau III e IV. Observação: considerar a epidemiologia local ou colonização individual conhecida por Candida spp resistente a azólicos – neste caso substituir por equinocandina.
  • Profilaxia direcionada para fungos filamentosos: se o risco de aspergilose for acima de 6%. Exemplos: Leucemia Mielóide Aguda, Doença do Enxerto contra Hospedeiro

  • Profilaxia direcionada para Pneumocystis jirovecii: se o risco de pneumocistose for acima de 3,5%. Exemplos: uso de prednisona acima de 20mg/dia por mais de 1 mês ou esquemas baseados em análogos de purina.

Profilaxias indicadas em condições de base específicas:


Condição de Base

Profilaxia Indicada

Duração

Leucemia Mielóide Aguda / Síndrome Mielodisplásica

Voriconazol 6mg/kg EV 12/12h no primeiro dia, seguido de 4mg/kg de 12/12h EV


OU


Posaconazol (suspensão oral 40mg/ml) 200mg (5ml) 3x/dia 


Durante a neutropenia

Transplantes de Órgãos Sólidos

(fígado, rim, coração, pulmão)

Consultar protocolo específico 

2 a 4 semanas

Transplante de medula óssea e GVHD

Consultar “Profilaxias, Tratamento e Manejo das infecções bacteriana, fúngicas e virais no TMO”.

Infecção fúngica invasiva prévia e haja planejamento de nova imunossupressão

Consultar especialista para definir melhor opção para a profilaxia secundária.


Para consultar as principais reações adversas, indicações de ajustes posológicos e interações medicamentosas de antifúngicos consulte e ficha técnica do medicamento: 




REFERÊNCIAS

Pappas PG, Kauffman CA, Andes DR, Clancy CJ, Marr KA, Ostrosky-Zeichner L, Reboli AC, Schuster MG, Vazquez JA, Walsh TJ, Zaoutis TE, Sobel JD. Clinical Practice Guideline for the Management of Candidiasis: 2016 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2016 Feb 15;62(4):e1-50. doi: 10.1093/cid/civ933. Epub 2015 Dec 16.

Donnelly JP, Chen SC, Kauffman CA, Steinbach WJ, Baddley JW, Verweij PE, Clancy CJ, Wingard JR, Lockhart SR, Groll AH, Sorrell TC, Bassetti M, Akan H, Alexander BD, Andes D, Azoulay E, Bialek R, Bradsher RW, Bretagne S, Calandra T, Caliendo AM, Castagnola E, Cruciani M, Cuenca-Estrella M, Decker CF, Desai SR, Fisher B, Harrison T, Heussel CP, Jensen HE, Kibbler CC, Kontoyiannis DP, Kullberg BJ, Lagrou K, Lamoth F, Lehrnbecher T, Loeffler J, Lortholary O, Maertens J, Marchetti O, Marr KA, Masur H, Meis JF, Morrisey CO, Nucci M, Ostrosky-Zeichner L, Pagano L, Patterson TF, Perfect JR, Racil Z, Roilides E, Ruhnke M, Prokop CS, Shoham S, Slavin MA, Stevens DA, Thompson GR, Vazquez JA, Viscoli C, Walsh TJ, Warris A, Wheat LJ, White PL, Zaoutis TE, Pappas PG. Revision and Update of the Consensus Definitions of Invasive Fungal Disease From the European Organization for Research and Treatment of Cancer and the Mycoses Study Group Education and Research Consortium. Clin Infect Dis. 2020 Sep 12;71(6):1367-1376. doi: 10.1093/cid/ciz1008. PMID: 31802125; PMCID: PMC7486838.

Tissot F, Agrawal S, Pagano L, Petrikkos G, Groll AH, Skiada A, Lass-Flörl C, Calandra T, Viscoli C, Herbrecht R. ECIL-6 guidelines for the treatment of invasive candidiasis, aspergillosis and mucormycosis in leukemia and hematopoietic stem cell transplant patients. Haematologica. 2017 Mar;102(3):433-444. doi: 10.3324/haematol.2016.152900. Epub 2016 Dec 23. PMID: 28011902; PMCID: PMC5394968.

Dadwal SS, Hohl TM, Fisher CE, Boeckh M, Papanicolaou G, Carpenter PA, Fisher BT, Slavin MA, Kontoyiannis DP. American Society of Transplantation and Cellular Therapy Series, 2: Management and Prevention of Aspergillosis in Hematopoietic Cell Transplantation Recipients. Transplant Cell Ther. 2021 Mar;27(3):201-211. doi: 10.1016/j.jtct.2020.10.003. PMID: 33781516; PMCID: PMC9088165.

Patterson TF, Thompson GR 3rd, Denning DW, Fishman JA, Hadley S, Herbrecht R, Kontoyiannis DP, Marr KA, Morrison VA, Nguyen MH, Segal BH, Steinbach WJ, Stevens DA, Walsh TJ, Wingard JR, Young JA, Bennett JE. Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Aspergillosis: 2016 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2016 Aug 15;63(4):e1-e60. doi: 10.1093/cid/ciw326. Epub 2016 Jun 29. PMID: 27365388; PMCID: PMC4967602.

Taplitz RA, Kennedy EB, Bow EJ, Crews J, Gleason C, Hawley DK, Langston AA, Nastoupil LJ, Rajotte M, Rolston KV, Strasfeld L, Flowers CR. Antimicrobial Prophylaxis for Adult Patients With Cancer-Related Immunosuppression: ASCO and IDSA Clinical Practice Guideline Update. J Clin Oncol. 2018 Oct 20;36(30):3043-3054. doi: 10.1200/JCO.18.00374. Epub 2018 Sep 4. PMID: 30179565.

Lexidrug: https://online.lexi.com/lco/action/home.